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Museu Nacional
Universidade de São Paulo
 

Esponjas De Água Doce (Águas Continentais)

Ulisses dos Santos Pinheiro (2008)
Departamento de Zoologia – CCB/UFPE

Espongiose
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Espongiose se refere a acidentes com esponjas que normalmente causam inflamações no tegumento atingido. Um dos indícios da espongiose é a coceira, além de forte reação alérgica, a qual pode requerer cuidados médicos urgentes. Isto normalmente ocorre por que as esponjas, ao morrerem, têm seu colágeno completamente decomposto, liberando para o ambiente todo seu esqueleto silicoso que é composto por espículas. Estas espículas penetram no tegumento causando as inflamações. Segundo Machado (1947), os Carajás (uma das tribos indígenas amazônicas) usavam espículas de esponjas de água doce para fabricar cerâmica. Esse autor descreve que “os indígenas pulverizam espongiários, calcinados previamente ou não, e adicionam à argila com que fabricam peças de sua cerâmica”. As mãos das oleiras indígenas que trabalhavam com cauxí (argila mista com espículas de esponjas) possuíam dermatite purulenta. Hilbert (1955) chama a atenção para a preferência dos caboclos pelo caripé (argila mista com cinzas de tecidos vegetais pertencentes a licania, uma rosácea) ao invés do cauxí. Os motivos por essa escolha estavam relacionados com os inchamentos das mãos causadas pelo cauxí e, ainda, porque os utensílios de cozinha fabricados com esse material causavam desarranjos estomacais.

Um dos casos de espongiose mais recente foi o surto de dermatites e cegueiras ocorrido em Araguatins (Tocantins). Sua população ao entrar em contato com a água do rio da região sofriam de vários casos de dermatite e cegueiras. O fato curioso é que estes acidentes só ocorriam na época de águas baixas, não ocorrendo sintomas na época da cheia. Após uma ampla investigação científica, Volkmer-Ribeiro et al. (2006) concluíram que tais lesões eram causadas por duas espécies de esponjas Drulia uruguayensis e Drulia ctenosclera, que ao morrerem liberam na coluna d’água muitas espículas, sendo a gemosclera o principal agente causador de acidentes oculares e dermatites. No caso de Araguantins tal acumulo de espículas foi conseqüência de alterações antrópicas que geraram o desequilíbrio no meio.

Outra espécie de esponjas de água doce que já foram registrados acidentes é a Sterrastrolepis brasilinesis, uma esponjas endêmica da Bacia do Paraná, conhecida popularmente como “espinho de pedra”. Esta espécie possui projeções cônicas que ficam aderidas fortemente ao substrato rochoso e por serem extremamente duras, ao inadvertidamente pisar nestas esponjas, os banhistas acabam perfurando os pés.

Perspectivas

A espongiologia de águas continentais é sem sombra de dúvida uma das áreas mais carentes de pesquisadores em todo mundo. Para se ter um idéia, os pesquisadores que se dedicam a esta área não passam de meia dúzia. No caso do Brasil apenas as Bacias do Atlântico Sul e do Paraná foram amostradas adequadamente (Pinheiro 2007), sendo necessário que esforços de coleta se concentrem nas demais Bacias, principalmente aquelas que fazem limite com o litoral brasileiro. Para tanto é necessária a formação de novos pesquisadores na área para que se implementem cada vez mais projetos.


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